quinta-feira, 9 de março de 2017

Dia de flores

Traziam flores nas mãos quando esta manhã entraram no autocarro. Sentia-se uma alegria extra na forma como caminhavam pelo corredor, rindo e gracejando com um presente que provavelmente não esperariam.
Nos outros dias, quando vou para o trabalho, elas, terminado o turno da limpeza naqueles escritórios, enchendo o autocarro com as suas conversas, tagarelam de lugar para lugar. Falam do trabalho. De como a encarregada as tratou por terem demorado mais na casa de banho, de como o patrão se atrasou com o pagamento do salário, de como têm que correr quando saírem do autocarro para apanharem o comboio e entrar no turno seguinte, noutro escritório a quilómetros de distância. Falam das famílias. Das preocupações com a saúde da mãe que está em Cabo Verde, do filho emigrante em Londres que não sabe bem como será daqui para a frente, do mau comportamento do mais novo na escola. Falam das tarefas domésticas que estão por cumprir. Da roupa que está acumulada à espera de um dia de folga, das compras que lhes custa carregar ao final da jornada.
São mulheres todos os dias. Hoje foram mulheres com flores.

quarta-feira, 8 de março de 2017

Os telespectadores

Todas as noites, após o jantar que se comia cedo, a mesa era desviada e as cadeiras eram encostadas à parede. Os bancos corridos ocupavam o centro da sala. As cervejas e os refrigerantes, que podiam apetecer, estavam no frigorífico. As pessoas, maioritariamente homens, iam chegando e ocupando os lugares. Não ficavam muito tempo porque no dia seguinte havia sempre que fazer no campo e porque a emissão não era longa. Mas naquelas poucas horas era todo um mundo que lhes entrava pelos olhos adentro. As notícias, as imagens de um país que não conheciam, de outros países que só imaginavam, os programas que mesmo feitos sem grandes recursos eram seguidos do princípio ao fim; enchiam de surpresa todos os presentes. Olhavam para o aparelho com uma atenção e uma reverência que o próprio padre na missa gostaria de ter para si. 
Era assim que terminavam, então, quase todos os dias das minhas férias de Verão naquela aldeia do interior da Beira Alta. Nesses anos 70 do século XX os televisores ainda eram ali um luxo que só as famílias com mais posses podiam comprar. Os meus avós, que tinham "um comércio" e que vendiam as tais bebidas, consideraram-no um investimento e, à falta de um café que só anos mais tarde passou a haver na aldeia, abriam a sua casa para que, quem quisesse, pudesse assistir às imagens a preto e branco que a RTP transmitia. 
Muitas conversas, muitas gargalhadas, muitos "oh's" de espanto ali aconteceram. E mesmo quando, numa noite, a programação não era do agrado de todos era certo e sabido que, na noite seguinte, a sala em casa da D. Tina estaria cheia.

(lembrado no dia em que a RTP fez 60 anos)

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Amadeo


Ser moderno será talvez isto: 99 anos depois da sua morte criar em quem olha as suas obras uma enorme emoção. Foi o que senti hoje ao visitar a exposição que pretende revisitar as exposições individuais que aconteceram no Porto e em Lisboa em 1916.
Percebemos que Amadeo estava consciente, na altura, da dificuldade de a sua pintura ser compreendida. De facto, muito se falou sobre ela e nem sempre bem. Mas isso até convinha a quem queria avançar e ir além das convenções e gostos da época.
De diversos suportes e técnicas, de temas variados, de muitas cores e texturas se faz a obra deste artista. Vê-la é sempre um prazer. 
Destaco este auto-retrato do artista com paisagem. É quase hipnotizante na sua capacidade de nos mostrar, simultaneamente, a sua pequenez e a sua grandeza. O seu apego à terra e ao seu país, tão presente nas temáticas que aborda, e a sua singularidade dentro dessa paisagem. 


Apesar da dimensão reduzida de algumas salas onde está a exposição, valeu bem a pena esperar tanto tempo numa fila. Este domingo é o último dia para a ver. Pouco mais de um mês é manifestamente tempo insuficiente para tão grande artista.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

"Um que não ia em futebóis"

Passam hoje 30 anos sobre a morte de José Afonso. Ele que nos acompanhou durante tanto tempo e que continua a acompanhar-nos, apesar de, em termos musicais, os músicos "herdeiros" daquele espírito de luta e justiça terem uma produção cada vez menor. O tempo passa e os ideais transformam-se noutras perspectivas e noutros interesses. Os que se emocionam com as suas canções, por terem vivido as realidades de que falava, são cada vez menos. Não temos que nos martirizar com isso. Mas a verdade é que se sente cada vez mais a falta de quem não vai em futebóis.

"Um que não vai em futebóis

Na Coimbra dos anos 50, provinciana e falaz, já havia todos os candidatos possíveis às ortodoxias que depois nos estoquearam o lombo. Aquilo era o centro geográfico do parece mal (...). Mas no pior pano cai a boa nódoa desses anos 50 a tenderem para 60, aos gritos chamava-se José Afonso, no liceu «Furcopês» inventor de música. Vinha de Aveiro, vinha de uma serra na eira, vinha de África, de muitos sítios e de todos ao mesmo tempo, pecha de que nunca se livrou.
Abreviámos-lhe o nome para Zeca, ouvíamo-lo em silêncio e, às tantas, perdêmo-lo de vista: andava pela província a ensinar meninos, a ganhar uns tustes com que aguentar a família precoce. Os seus regressos, por vezes numa estrada à espera de um autocarro com o Orfeon ou a Tuna dentro, eram sinal de festa. Falava pouco, mas diferente, por falar nisso, encostou muita gente à parede. Outra sina sua.
O país de fora-parte conheceu-o só nos idos de 60, quando as universidades bateram com o pé no chão. Já ele, creio bem, partira para novos casos, novas causas, descobrindo que o Portugal que sobrava das escolas superiores era quase todo, e algum passava mal. Se no 25 de Abril os capitães escolheram a «Grândola» para senha do movimento foi uma naturalidade: quem, de entre os anjos de pedra lioz, poderia responder-lhes?
Ser heterodoxo, minoria de um, avesso das verdades oficiais, custa como o diabo. José Afonso está aí que não me desmente. Honra lhe seja feita, ele é da raça dos que não vão em futebóis mansos." 

Texto de Fernando Assis Pacheco no catálogo da compilação de temas de José Afonso lançada em 1983 pela Editora Orfeu.

Reabertura sem filas. É o que se prevê.

A sua inauguração aconteceu na data prevista. No primeiro dia a vontade de o visitar levou meio mundo até Belém. Uma ponte pedonal teve que ser encerrada por excesso de utilização em tão pouco tempo. Milhares de pessoas nesse dia e nos seguintes foram conhecer o edifício e a sua envolvente próxima. E não acredito que tal tenha apenas a ver com o facto de não se pagar entrada.
Daí para cá as obras no exterior não pararam. No interior recomeçarão agora. Depois reabre. Desta vez já não será de graça. Mas esta situação até tem graça. Ou pelo menos inspira-a...

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Resumo de Perdição

O teste que incide sobre a obra aproxima-se. Em cima da mesa está um resumo. No que se refere às principais personagens leio:

Simão Botelho (ama Teresa)
Teresa de Albuquerque (ama Simão)
Mariana (ama Simão)

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Talvez não fosse má ideia uma errata

Quem trabalha em rádio ou em televisão e faz directos está sujeito a algumas "gaffes". Isso é certo. E actualmente, com a possibilidade de se registar e guardar o que se ouve ou vê, as provas estão à mão de semear. Mas se algumas há que não se podem considerar muito graves (por exemplo, hoje de manhã, não sei em que canal, dizia o jornalista, a propósito da chamada de atenção da Google para Carmen Miranda, que passavam 108 anos sobre a sua morte...); outras há que até arrepiam. Ora vejam:



A boa notícia é que num dos exemplos não disse asneiras. Está-me cá a parecer que no próximo livro deste senhor o protagonista da história andará desesperadamente à procura de uma gramática... 

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

"Nas nossas ruas, ao anoitecer"

A cama está sempre impecavelmente feita. Agora, com o frio, o saco cama não chega e a manta aos quadrados cobre-o, tornando a noite mais suportável. 
O cão, depois de ter ido dar uma volta, está enroscado junto à cabeceira. Está bem tapado. Também ele tem uma manta às riscas. 
Estamos em pleno Marquês de Pombal e a maior parte das pessoas regressa às suas casas. O homem deita-se cedo. Parece indiferente ao bulício da hora de ponta na cidade. 

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Este é “o nosso reino”

Aqui se saúda o lapso dos responsáveis pelo Plano Nacional de Leitura.
É que o facto de se falar tanto, por estes dias, do livro e do autor, contribuirá certamente para aumentar a curiosidade com um e outro e, quem sabe, Valter Hugo Mãe ganhará novos leitores, quer entre alunos de várias idades, quer entre os pais de alunos de várias idades, incluindo aqueles que levantaram o que consideram ser um problema.
Leiam o livro! E se, em algumas páginas, o pudor for mais forte leiam-no às escondidas. Não é nada que não tenha sido feito quando em vez de “escola secundária” aquele local ainda se chamava "liceu".
A literatura portuguesa passada, presente e futura agradece.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Não é má ficção. É uma muito triste realidade.

Muitas séries e filmes têm sido criados nos EUA à volta da figura do presidente. Alguns argumentos são tendencialmente mais fiéis à realidade. Noutros a ficção é rainha. Uns mais verosímeis, outros menos. 
Mas se um argumentista se atrevesse a imaginar um presidente que tomasse as atitudes que Trump tem tomado duvido que alguém considerasse esse argumento, sequer, digno de uma leitura atenta. Mesmo que considerado para um "série B" ou "C" ou outro, iria imediatamente para o lixo por a personagem principal não ter um mínimo de adequação à figura de um presidente. E afinal...

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Uma referência sentida

... a alguém que conseguia provocar gargalhadas, quanto mais não fosse um sorriso e que, durante alguns anos, nos fez companhia enquanto acompanhávamos as peripécias passadas em Nouvion, no Café do René. Grandes personagens representadas por grandes actores, entre eles Gorden Kaye que partiu esta semana. 
Quem guardará agora o quadro da "fallen Madonna with the big boobies de Van Klomp"?

                                                                         Imagem aqui

Presidente?

De uma maneira bastante clara, e traduzindo uma expectativa, estou convencida que Donald Trump não vai ser presidente por muito tempo. Nem a maioria dos americanos se irá rever nas suas ideias e atitudes, nem os próprios republicanos aguentarão que alguém ligado ao seu partido destrua, de forma tão rápida, um país com a dimensão dos EUA. Mesmo sabendo que é preciso levá-lo a sério, tendo como base o que já disse e fez nestes últimos dias e primeiros do seu mandato, fica-se com a sensação de que tudo não passa de um reality show de quinta categoria, produzido por um canal seu, dirigido a um público nacional e internacional. Esperançada fico à espera de o ver olhar para uma câmara e dizer: - Não se preocupem. Era a brincar...
Até agora ainda não aconteceu. E os episódios começam a avolumar-se.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

O dia a que não pensámos assistir

Se o sistema eleitoral americano não é o melhor é o que existe e é com ele que os americanos, a menos que o alterem, podem contar. Trump foi eleito e por isso deveria ser respeitado. No entanto, é sobretudo ao presidente que cabe demonstrar que é digno desse respeito. E a verdade é que, mesmo não tendo ainda tomado posse, as suas atitudes antes e depois das eleições enchem-nos de vergonha e de medo. O mundo já tem tantos problemas que ter este homem à frente de um país como os EUA é algo que certamente todos dispensaríamos. 
É por isso que hoje começa a contagem decrescente para o dia em que o possamos ver assim. Pelas costas....
Imagem retirada daqui.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Numa terra à beira-mar

Não, não gosto de dramalhões, como sugeriu uma amiga, quando lhe disse que tinha gostado muito do filme de Kenneth Lonergan, Manchester by the sea. O dramalhão exagera determinada situação da acção, tornando-a praticamente a única, levando-nos à exasperação. E não é isso que acontece neste filme. Esta é uma história dramática, sim, mas simples e bem contada. Os acontecimentos que marcam as personagens são realmente devastadores mas a acção não se centra neles mas nas respostas e nos comportamentos que não são capazes de controlar ou que conseguem demonstrar perante a adversidade. Ver um actor, como é o caso de Casey Affleck, conseguir mostrar-nos tanta dor daquela forma tão contida mas tão forte é algo que, na minha opinião, faz deste um filme intenso. A ver, portanto.

sábado, 14 de janeiro de 2017

Da modernidade

De Zygmunt Bauman li alguns textos embora, confesso, nunca tenha lido qualquer obra por inteiro. Por estes dias, após a sua morte, no dia 9, pensei em escrever aqui alguma coisa. Conhecendo as suas teses pessimistas sobretudo no que diz respeito à forma como a omnipresença das redes sociais transforma, para pior, a forma como nos relacionamos com o mundo, talvez não seja, afinal, boa ideia falar desse facto aqui.
Do único livro que tenho do autor retiro duas citações sobre a modernidade que nos obrigam a pensar: 
..."A modernidade é o que é - uma obsessiva marcha adiante -, não porque queira sempre mais, mas porque nunca consegue o bastante; não porque se torne mais ambiciosa ou aventureira, mas porque as suas aventuras são mais amargas e as suas ambições frustradas. A marcha deve seguir adiante porque qualquer ponto de chegada não passa de uma estação temporária"...
... "Estabelecer uma tarefa impossível não significa amar o futuro, mas desvalorizar o presente. Não ser o que deveria ser é o pecado original e irredimível do presente. O presente está sempre «a querer», o que o torna feio, abominável e insuportável. o presente é obsoleto. É obsoleto antes de existir. No momento em que aterra no presente, o ansiado futuro é envenenado pelos eflúvios tóxicos do passado perdido. O seu desfrute não dura mais do que um momento fugaz, depois do qual (e o depois começa no ponto de partida) a alegria adquire um toque necrofílico, a realização torna-se pecado e a imobilidade morte."...

in Zygmunt Bauman, Modernidade e Ambivalência, Lisboa, Relógio D'Água Editores, 2007, p. 22 e 23